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Este artigo apresenta um dos casos policiais mais famosos do Brasil, ocorrido em 1966. O caso foi investigado exaustivamente à época, mas permanece sem solução até hoje. As informações aqui apresentadas são resultado de minha própria pesquisa. As imagens são creditadas sempre que possível, e as fontes utilizadas estão disponíveis ao final. Quaisquer erros são de minha responsabilidade. O artigo está dividido em três partes: O Evento, apresentando a cronologia do caso; A Investigação, detalhando o trabalho de investigação da polícia; e Opinião, com as minhas reflexões.

Aviso: ao final você encontra links para dezenas de artigos de jornais e revistas da época, que serviram de base para este artigo. Entretanto, é comum encontrar relatos conflitantes sobre um mesmo fato e alguns artigos confundem nomes e locais. Às vezes, um autor comete um erro simples em um artigo e este erro é perpetuado ao longo dos anos, fazendo com que as pessoas acreditem que aquilo é realmente verdade.
Este artigo está em constante manutenção, à medida que matérias novas são encontradas, escaneadas, transcritas e revisadas. Há também uma seção de perguntas frequentes, que será expandida sempre que necessário. Caso tenha alguma sugestão ou correção, deixe um comentário.
(English version of this article)
O Evento
Manuel, à esquerda, e Miguel, à direita (crédito: Revista O Cruzeiro, 12 de Setembro de 1966)
Os amigos Miguel José Viana (34) e Manuel Pereira da Cruz (32) moram em Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro. Eles possuem uma pequena oficina de conserto de TVs em casa. Miguel é casado com Elsa Gomes Viana e Manuel é casado com Neli da Cruz. Ambos fizeram cursos de eletrônica em São Paulo. Miguel também concluiu um curso por correspondência em eletrônica pela National Schools, Los Angeles, Estados Unidos, em 1951 [JB5]. Ele também tinha contatos com outras escolas técnicas nos EUA, como o Hollywood Radio and Television Institute, também da Califórnia. Os dois são bem conceituados em Campos, especialmente por sua experiência em eletrônica e em reparo de TVs.

(* alguns artigos mencionam a data 13 de Maio, mas como dois artigos do dia 13 descrevem o fato, a explosão provavelmente ocorreu no dia anterior. Alguns artigos também mencionam incorretamente que a explosão ocorreu em Junho)
Miguel, Manuel e seu amigo Élcio Correia Gomes participam de um experimento na praia de Atafona, famoso ponto turístico em São João da Barra, próximo a Campos. Às 21h, uma enorme explosão produz uma bola de fogo que ilumina o céu. A explosão foi ouvida a 10 quilômetros de distância. Testemunhas também dizem ter sentido o chão tremer, e algumas casas próximas sofreram pequenos danos. Uma sessão de cinema é interrompida devido ao pânico. O boato na época era de que um “disco voador” havia caído no mar. Um morador local diz que viu um navio bem iluminado ao longe e, em seguida, o navio havia desaparecido. A explosão chama a atenção da Marinha, que inicia uma investigação [FS2].

O investigador Válter Fernandes, da delegacia de polícia de São João da Barra, também ouve a explosão e sente o prédio tremer. Ele sai para investigar. Na praia, próximo ao farol, nota um cheiro forte de enxofre vindo de uma marca na areia, com 35 centímetros de largura e 25 centímetros de profundidade [FS1, CM1], parecendo marcas de pneus grandes. Após colher alguns depoimentos, ele relata o fato aos seus superiores.
Algum tempo antes da explosão, Miguel havia contatado um operador de rádio amador clandestino, Evaristo Fidélis de Morais, que supostamente possuía um potente transmissor de rádio [JB6], a cerca de 300 metros da praia de Atafona.
Élcio costumava ajudar Miguel e Manuel na oficina e recebia ensinamentos de eletrônica do primeiro.

Um artefato desconhecido explode no quintal da casa de Manuel. A foto abaixo mostra Sebastião Pereira da Cruz, pai de Manuel, perto do local da explosão, ao lado de restos de metal retorcido e fios.

Manuel acorda sua esposa Neli no meio da noite, dizendo que na manhã seguinte ele e Miguel viajarão para São Paulo, a fim de comprar um carro usado e peças para a oficina. Suas palavras foram [MM1]:
Precisamos, eu e o Miguel, de um carro para melhor atender aos fregueses. Vamos comprá-lo em São Paulo.
Eles embrulham em um pacote de papel uma quantia considerável de dinheiro: Cr$ 2.300.000. Outras fontes mencionam quantias diferentes: algumas dizem que eram 4 milhões, 5 milhões ou até 6 milhões. Manuel também coloca duas toalhas em outro pacote. Alguns amigos, sabendo da viagem para São Paulo, encomendam algumas coisas de lá.
17 de Agosto de 1966, 9:00hAluísio Batista Azevedo, um amigo de Miguel e Manuel, leva-os de carro para a rodoviária. Lá a dupla se encontra com Élcio, antes de embarcar em um ônibus da Auto Viação Santo Antônio. Eles compraram passagens para os assentos 25 e 26. O destino, porém, não era São Paulo, mas Niterói, no estado do Rio.



Os dois chegam a Niterói sob chuva. Não sabemos se alguém estava esperando por eles na rodoviária.

Na seção de meteorologia dos jornais da época, o tempo era dado como instável, com ventos fracos, temperatura máxima de 23,8º C. Era lua nova (para ser mais exato, uma lua crescente de apenas 2.3%). O pôr do sol seria às 17:35h.

Miguel e Manuel foram a uma loja de componentes eletrônicos (“Fluscop”, na Travessa Alberto Vítor, número 13) e conversaram com Hernani Teixeira de Carvalho Filho, o dono. Hernani já os havia encontrado quatro dias antes em Campos. Naquela ocasião, Manuel mostrara a Hernani um anúncio de um gerador de frequência AM/FM avaliado em mais de 1 milhão de Cruzeiros. Na Fluscop, pedem alguns componentes da Philips, mas a loja não os tem em estoque. Hernani achou o pedido um pouco estranho, pois Miguel e Manuel são técnicos experientes e deveriam saber que esses componentes da Philips não costumam ser encontrados em Niterói. Ao saírem, Miguel e Manuel convidam Hernani para ir com eles a São Paulo para tentarem encontrar os componentes lá, mas Hernani recusa a oferta. Duas outras pessoas testemunham essa conversa na loja: um funcionário e um taxista.
Abaixo, um anúncio da Fluscop em um jornal da época, e uma foto de Hernani curtindo a vida social do Rio de Janeiro. A Fluscop é muito bem conceituada no ramo da eletrônica, expandindo seus negócios por volta de 1965-1966.


Hernani Filho entregando um troféu destinado a um concurso de “Jambete” Simpatia em Niterói, patrocinado pela Fluscop (crédito: O Fluminense, 1968)
Miguel e Manuel vão a um armarinho (“Casa Brasília”, na Rua Coronel Gomes Machado, número 69) e compram duas capas de chuva por Cr$ 9.400 cada, sendo atendidos pela vendedora Dalva. Os dois demonstram estar com pressa e, embora esteja chovendo, não vestem as capas de chuva ao saírem da loja. Mais tarde, a polícia faria a observação de que, segundo depoimentos, ambos os homens pareciam calmos na Fluscop mas, na Casa Brasília, demonstravam nervosismo, o que leva à especulação de que Miguel e Manuel possam ter se encontrado com alguém entre estes locais.

Miguel e Manuel vão a um bar (“Bar e Mercearia São Jorge”, na Avenida Marquês do Paraná, número 172) perto do Morro do Vintém. Pedem uma garrafa de água mineral Magnesiana “bem gelada” e são atendidos por Maria de Lourdes Sá Relvas, filha de Miguel de Sá Relvas, dono do bar. Apesar da pressa, pedem e esperam o recibo para poderem devolver a casco mais tarde e receber um reembolso (Cr$ 200). Saem do bar e seguem para a Rua Andrade Pinto, que termina na base do Morro do Vintém.
17 de Agosto de 1966, alguns minutos depois das 15:15hEles chegam ao final da Rua Andrade Pinto e pegam uma das trilhas existentes para o morro. Jornais da época afirmam que existem oito trilhas diferentes, mas não se sabe qual delas eles tomaram.

Miguel e Manuel chegam ao topo do morro. Não se sabe se chegaram sozinhos ou se alguém os esperava lá em cima.
Acima, um possível trajeto de Miguel e Manuel da rodoviária até a base do Morro do Vintém, em amarelo, e depois até o topo do morro, em vermelho. A localização da trilha e da clareira são apenas estimativas. O caminho verde leva à SEPE (“Sociedade de Estudos e Pesquisas Espíritas”), um famoso centro espírita em Niterói. A polícia especulou na época que Miguel e Manuel poderiam ter parado nesse local para encontrar alguém e/ou receber instruções. O ponto FEERJ (Federação Espírita do Rio de Janeiro) é outro famoso centro espírita no caminho, mas também não há evidências concretas de que eles tenham ido até lá. Distâncias e tempos estimados de caminhada:
- Da rodoviária até a Fluscop: 1300 metros, 17 minutos.
- Da Fluscop até a Casa Brasília: 280 metros, 4 minutos.
- Da Casa Brasília até o Bar São Jorge: 850 metros, 11 minutos.
- Do Bar São Jorge até o início da trilha (final da Rua Andrade Pinto): 1000 metros, 16 minutos.
- Do início da trilha até a clareira: 70 minutos [JB2] em condições favoráveis.
Abaixo, uma colagem das fotos que ilustram a matéria da Revista UFO número 87. De acordo com a reportagem, a seta vermelha indica o local aproximado da clareira onde os corpos foram encontrados. As fotos foram tiradas de algum ponto da Rua Andrade Pinto. A construção no alto do morro à esquerda é a estação repetidora do Morro da Boa Vista.

Abaixo, uma visão aproximada do mesmo local, obtida no Google Earth. A perspectiva não é exatamente a mesma, mas próxima o suficiente. O ponto identificado como “Clareira” é o mesmo que aparece no mapa do centro de Niterói mostrado anteriormente.


Acima, um “Edital de Convocação” publicado em um jornal local de Niterói, onde a SEPE convoca seus membros para uma reunião em sua sede, localizada na Rua Visconde de Itaboraí, número 265, e um recorte anunciando uma “Solenidade Espírita” realizada na sede da FEERJ, localizada na Rua Coronel Machado, número 140. Ambos os endereços ficam no trajeto que Miguel e Manuel teriam percorrido em Niterói, como mostra o mapa acima. Hoje, a FEERJ se transformou no IEBM (Instituto Espírita Bezerra de Menezes), mas ainda está localizada no mesmo endereço.


Gracinda Barbosa Coutinho estava dirigindo com seus três filhos pela Alameda São Boaventura, perto da região do Morro do Vintém, quando avistaram algumas luzes no céu. Gracinda parou o carro e os quatro saíram para observar as luzes por 4 minutos. Gracinda descreveu o que viu como um objeto oval, de cor laranja brilhante, rodeado por um anel de fogo que emitia raios de luz azul em várias direções, movendo-se para cima e para baixo acima do Morro do Vintém. Gracinda voltou para casa e contou a Paulo Roberto, seu marido, sobre as luzes. Paulo foi até o local, mas as luzes haviam desaparecido. Eles decidiram não contar a ninguém sobre o avistamento naquele momento.

Enquanto caçava preás e pássaros no alto do Morro do Vintém, um menino chamado Paulo Cordeiro Azevedo dos Santos vê dois homens deitados no chão. Sem saber se estavam dormindo ou mortos, ele corre assustado e vai até a casa de Antônio Guerra de Castro, um patrulheiro que mora nas proximidades, para contar o ocorrido. Antônio não dá muita atenção ao menino e não faz nada a respeito.
20 de Agosto de 1966, tardeOutro menino, Jorge da Costa Alves, está no alto do Morro do Vintém tentando pegar uma pipa presa no topo de uma árvore quando também vê os corpos. No final da tarde, ao voltar para casa, Jorge liga para a delegacia e relata o ocorrido. Como já estava ficando tarde e também devido ao mau tempo, Oscar Nunes, o policial que atendeu a ligação, decidiu não subir o morro naquele dia.
21 de Agosto de 1966, manhãPoliciais, bombeiros, repórteres e voluntários sobem o Morro do Vintém para resgatar os corpos. Devido ao mau tempo e ao terreno difícil, levam mais de duas horas para chegar lá. No local, uma clareira de cerca de 10 metros quadrados no topo do morro, encontram os corpos de Miguel e Manuel, vestidos com ternos idênticos e capas de chuva. Os corpos são facilmente identificados porque ambos estavam com seus documentos de identidade. Há sinais de sangue na boca e no nariz dos mortos. Os corpos estão deitados de costas sobre uma “esteira” feita de folhas de pindoba (um tipo de palmeira). Há também traços de sangue em algumas das folhas [JB2]. Folhas de pindoba são resistentes e só podem ser cortadas com uma faca, mas nenhum objeto cortante foi encontrado no local. A polícia encontrou os seguintes itens na clareira:
- Uma garrafa de água mineral, quase vazia;
- Copos improvisados feitos de papel alumínio;
- Um pacote com duas toalhas;
- Uma aliança de casamento presa a óculos de leitura, dentro do paletó de Miguel;
- Um relógio de pulso guardado no bolso da calça de Miguel;
- Dinheiro (Cr$ 157.000 escondidos em um saco plástico dentro da calça de Miguel e Cr$ 4.000 dentro do paletó de Manuel);
- Um lenço dobrado, com as iniciais A.M.S. bordadas [JB2, JB9];
- O vale do casco da água mineral;
- Fósforos e cigarros dentro do paletó de Miguel;
- Duas passagens de ônibus não utilizadas de Niterói para Campos (apenas um artigo de jornal menciona este item [CM2]);
- Pedaços quadrados de papel celofane impregnados com alguma substância [JB3];
- Um jornal de 17 de agosto [JB1];
- Duas máscaras ao lado dos corpos. As máscaras, feitas de forma rudimentar, têm o formato de óculos de sol, mas são feitas de chumbo puro e não possuem orifícios para os olhos;
- Um bilhete de papel escrito à mão com algumas equações relacionadas a eletrônica;
- Um bilhete de papel escrito à mão com letras e números em uma espécie de código;
- Um bilhete de papel escrito à mão com instruções, encontrado no bolso de Miguel;
- Um bilhete de papel escrito à mão com algumas receitas de remédios;
- Um bilhete de papel sujo com a palavra: banzai.





Um dos bilhetes contém as seguintes instruções:
16:30 Hs. está local determinado.
18:30 Hs. ingerir capsúla após efeito
proteger metais aguardar sinal máscara
Além de conter alguns erros de português (“está” no lugar de “estar”, e “capsúla” no lugar de “cápsula”), as instruções não têm pontuação, portanto o significado é ambíguo: a segunda linha poderia ser lida como “Ingerir as cápsulas após o efeito” ou “Ingerir as cápsulas. Após o efeito, …”. A terceira linha poderia ser lida como “Proteger os metais. Aguardar o sinal. (Usar) máscara”, mas também como “Proteger os metais. Aguardar o sinal (da) máscara”. O fato de a aliança e o relógio terem sido encontrados dentro das roupas de Miguel pode estar relacionado à instrução de “proteger metais”. Outro bilhete dizia:
Domingo: 1 cápsula após a refeição
Segunda-feira: 1 cápsula pela manhã, em jejum
Terça-feira: 1 cápsula após a refeição
Quarta-feira: 1 cápsula ao deitar

17 de agosto de 1966 foi uma quarta-feira. Portanto, a instrução “1 cápsula ao deitar” faz sentido neste contexto, já que o outro bilhete os instruía a ingerir uma cápsula quando estivessem deitados na clareira. Se for esse o caso, a preparação teria começado no domingo, 14 de Agosto.
Um terceiro bilhete dizia: “Compre um rolo de linha de 500 metros”. Não há uma imagem nítida deste bilhete, mas ele é mencionado na mesma fonte (Revista Manchete de 10 de setembro de 1966). Mais tarde, descobriu-se que era um pedido do pai de Miguel. Havia também uma folha de papel azul prateado com equações da Lei de Ohm.

A polícia inicia uma investigação, sob o comando do delegado José Venâncio Bittencourt. Os corpos são levados para o Instituto Médico Legal, que está movimentado naquele dia. Hilton Magalhães, um investigador importante da polícia, havia sido assassinado [OF4] naquela manhã e seu corpo foi levado para o mesmo instituto, provavelmente recebendo prioridade. Contrariando as regras, um auxiliar do legista cuida de Miguel e Manuel [YT1] e realiza ele mesmo a remoção dos órgãos internos, em preparação para a autópsia. Segundo consta, não foram encontrados sinais de violência ou ferimentos nos corpos.

O irmão de Miguel, Herval Viana, vai ao Instituto Médico Legal de Niterói para buscar os corpos.

Miguel e Manuel são sepultados lado a lado no cemitério do Caju, em Campos, na quadra X, nas sepulturas de número 77.234 e 77.235, respectivamente. Mário Dias, repórter que cobria o caso, dirige-se ao Instituto Médico Legal em Niterói e descobre que os órgãos de Miguel e Manuel foram simplesmente jogados fora, sem que fossem realizados os exames adequados. Ao que tudo indica, os órgãos foram deixados em uma prateleira por vários dias e deterioraram-se a ponto de se tornarem imprestáveis para qualquer tipo de exame. Além disso, o IML não possuía todos os reagentes necessários para realizar os testes.

Quando o caso de Miguel e Manuel vira notícia, Gracinda e seu marido informam a polícia sobre o avistamento das luzes acima do Morro do Vintém. Outras pessoas, após lerem o relato de Gracinda, ligam para a polícia contando histórias semelhantes.
Em Niterói, a polícia interroga Carlos Macário de Vasconcelos e Luiza Sales de Vasconcelos, um casal que morava em uma casa a 200 metros do local onde os homens foram encontrados mortos. O casal explica que não são os donos do local, mas que supervisionam uma obra de reforma para Laércio da Silva Dias, o proprietário. A polícia encontra uma grande quantidade de imagens e estátuas de santos na casa. Carlos testemunha que não tem nenhuma ligação com as práticas do espiritismo.
A polícia também retorna ao Morro do Vintém para fazer alguns esboços da área. Encontram um pequeno poste de cimento no chão, com cerca de 30 centímetros de altura. Acredita-se que esse poste possa ter sido usado como ponto de referência para um encontro no local.
25 de Agosto de 1966Após examinar as máscaras de chumbo junto com alguns policiais e jornalistas, o delegado José Venâncio Bittencourt tem uma crise alérgica, que lhe causa manchas vermelhas por todo o corpo.
26 de Agosto de 1966Como o primeiro laudo de autópsia não identificou a causa da morte, os investigadores solicitaram a outro especialista, Dr. Alberto Farah, que revisasse o laudo e emitisse seu parecer. Posteriormente, o Dr. Farah informa a Venâncio que a causa da morte permanece desconhecida.
27 de Agosto de 1966A Polícia Federal é acionada e inicia investigações em quatro estados: Guanabara, Rio de Janeiro, Espírito Santo e São Paulo. Os serviços secretos do Exército, da Marinha e da Força Aérea também investigam o caso, buscando apurar se o suposto experimento no morro tem alguma relação com a explosão ocorrida meses antes na praia de Atafona e se o incidente poderia representar algum risco à segurança nacional [JB5, JB10].
José Venâncio Bittencourt viaja a Campos para investigar a vida de Miguel e Manuel. Élcio é preso e levado a Niterói para interrogatório.

Quando questionado, Élcio deu essa explicação [MM1]:
Sempre fui amigo dos dois. D. Elza pode testemunhar a respeito. Miguel, seu marido, era íntimo meu. Quanto a Manuel, sabíamos que atravessava um mau momento, não financeira, mas moralmente falando, e procurávamos trazê-lo de volta ao bom caminho. Como kardecista crente, procurei colocá-lo em contacto com os bons espíritos, e foi com essa intenção que o levei a algumas sessões no Centro Espírita. É só. Quando me despedi dêles, na rodoviária, estava certo de que iriam mesmo a São Paulo. A partir daquele dia, nada mais sei.
Observação: quando o texto de uma matéria antiga for reproduzido, como no trecho acima, optou-se pela grafia do Português da época, como aparece no original. Por isso está escrito “contacto” e “dêles”.
31 de Agosto de 1966Em Campos, investigadores revistam a casa de Evaristo Fidélis de Morais, que foi contatado por Miguel antes da explosão na praia de Atafona. Encontram a antena, mas o transmissor já havia sido vendido. São João da Barra não possui radioamadores registrados; porém, a Marinha interceptou algumas transmissões entre os prefixos CKJ21, CKJ22 e CKJ23 na área dois dias antes da explosão em Atafona [JB5]. Nenhum desses prefixos tinha registro.

Sem o conhecimento de Élcio, um advogado entra com um pedido de habeas corpus para libertá-lo [JB6], e a polícia cumpre a ordem.
1º de Setembro de 1966José Venâncio Bittencourt é promovido a outro cargo na polícia e deixa o caso. José Silva é nomeado para assumir o cargo de delegado em uma data futura. Enquanto isso, o caso é atribuído aos policiais Idovam Ferreira (que levou Élcio a Niterói para interrogatório) e Hélio Brasil.

Élcio apresenta um álibi para a tarde de 17 de Agosto. Ele mostra uma nota fiscal [JB7] de uma loja de peças de carro em Campos, a quase 280 quilômetros de Niterói, onde Miguel e Manuel morreram. Mais tarde naquele dia, na hora estimada das mortes, ele foi visto por vizinhos em frente à sua casa mexendo no seu carro.
3 de Setembro de 1966José Venâncio Bittencourt diz que, embora não esteja mais diretamente envolvido no caso, ainda está interessado na investigação e pretende ir novamente a Campos. Ele discute com sua equipe se vale a pena solicitar uma exumação e uma nova análise dos corpos.
Setembro de 1966 (cerca de um mês após a liberação dos corpos)Enquanto examina a loja de Miguel, Herval Viana descobre que um bilhete encontrado junto aos corpos fora recortado de um caderno que ele encontra lá.
Herval retorna ao Instituto Médico Legal de Niterói para obter as certidões de óbito, assinadas pelo Dr. Astor Pereira de Melo. Nas certidões consta que, devido ao avançado estado de decomposição, não é possível atestar a causa da morte. Descobre-se que o primeiro laudo de necropsia continha uma falha grave [YT1]: o nome do perito Sebastião Faillace foi rasurado e substituído por outro nome, Walmor Giani. Especula-se que Sebastião não concordou com o laudo e, por isso, solicitou a remoção de seu nome.


Herval vai a um cartório de registro civil em Niterói para registrar o óbito de Miguel. Segue cópia da página do registro oficial:

REGISTRO DE ÓBITO
Aos dezessete de Outubro de mil novecentos e sessenta e seis, nesta cidade de Niterói, capital do Estado do Rio de Janeiro, em cartório compareceu Herval Viana, mecânico, residente à rua Silva Pinto 46, no município de Campos, deste Estado, apresentando um atestado de óbito firmado pelo Dr. Astor Pereira de Melo declarou que em consequência de A necropsia não revelou elementos capazes de determinar a causa mortis em face do estado de decomposição avançado no dia provavelmente em 17 de agosto de 1966 horas encontrado na rua Gastão Gonçalves (morro) faleceu Miguel José Viana, do sexo masculino, de cor branca, estado civil casado, profissão _____ residente _____ com 32 anos de idade, filho de Amaro Miguel Viana e Izabel de Carvalho. O falecido sim deixou bens a inventariar, era casado com Elza Gomes Viana, havendo do casal quatro filhos menores. O sepultamento será feito no cemitério do Município de Campos, deste Estado. Nada mais declarou. Lido e achado conforme assina o declarante com o oficial do Registro Civil. Eu, Merides Leite de Castro, sub-oficial escrivão. E eu, Maria Margarette (…) de Carvalho, oficial substituta subscrevo e assino no impedimento (…) do oficial (…)
Herval Viana
Maria Margarette (…) de Carvalho
Em negrito estão as palavras fixas do formulário. As demais palavras foram escritas à mão. Algumas palavras, no final, estão ilegíveis. A Rua Gastão Gonçalves, mencionada na certidão, aproxima-se do Morro do Vintém pelo lado sul. Provavelmente foi declarada como o local da morte por ser a rua asfaltada mais próxima da clareira onde os corpos foram encontrados (daí o termo “morro” entre parênteses para enfatizar que o corpo foi encontrado no morro, e não na rua). A idade de Miguel também está incorretamente registrada como 32 anos. Outra informação, não encontrada em nenhum outro lugar, é que Miguel e Elza tiveram quatro filhos.
A InvestigaçãoÉlcio testemunha que, ao contrário do que foi dito, Miguel e Manuel foram os mentores da explosão em Atafona e que ele apenas aceitou o convite para assistir ao espetáculo. Em seu primeiro depoimento, disse que foram a Atafona no carro de Miguel. Mais tarde, mudou a história, dizendo que o carro de Miguel estava estragado e que foram no seu carro.
Valdir Cardoso, que trabalhava como antenista para Miguel e Manuel, afirma que Élcio mentiu sobre o experimento em Atafona [JB11]. Segundo Valdir, Élcio convidou os três (Miguel, Manuel e Valdir) para assistirem a algo sobrenatural em Atafona, mas não revelou muitos detalhes de antemão. Ele disse que a viagem de 40 quilômetros de Campos a Atafona naquela noite durou menos de uma hora. Disse que Élcio foi sozinho à praia e os três homens esperaram por 10 minutos. Então Élcio voltou correndo e todos viram uma enorme luz vermelho-púrpura descendo em direção à água. Élcio insistiu para que entrassem no carro e fossem embora dali, pois algo ruim estava para acontecer. Valdir se lembra de sentir um forte cheiro de enxofre no ar, mas disse que não se lembra de ter ouvido nenhuma explosão na hora.
Valdir também conta que Élcio era praticante de espiritismo e que dizia poder incorporar espíritos: às vezes ele recebia o “Dr. Paulo”, às vezes o “Dr. Samuel”. Élcio tinha grande influência sobre Miguel e Manuel (um fato curioso: um tempo atrás, Élcio pegou dinheiro emprestado com Miguel, mas não pagou porque, segundo ele, “uma sereia do rio levou meu dinheiro”). Tanto Miguel quanto Manuel frequentemente procuravam Élcio em busca de ajuda do mundo espiritual: Miguel era asmático e Manuel sofria de dores abdominais crônicas. Segundo Valdir, o “Dr. Samuel” sempre lhes dava bons conselhos. Os quatro amigos, Miguel, Manuel, Valdir e Élcio, costumavam se reunir na oficina para longas sessões espirituais. Miguel e Élcio eram os mais entusiasmados do grupo, enquanto Manuel, no início, se mostrava um pouco cético. Alguns dias antes do dia 17 de Agosto, Manuel teria dito [OC1]:
Vou assistir a uma experiência definitiva. Depois dela, eu digo se acredito ou não.
A polícia descobriu que Miguel e Manuel realizaram outros experimentos nas cidades de Macaé, Campos e Niterói (no estado do Rio de Janeiro), e em Mimoso do Sul, Alegre, Cachoeiro de Itapemirim e Colatina (no Espírito Santo). Os militares queriam saber se esses experimentos poderiam representar alguma ameaça à segurança nacional.
A esposa de Manuel, Neli, confirmou que ele participou do experimento na praia de Atafona. Também confirmou que as máscaras de chumbo tinham sido feitas por Miguel e Manuel no dia anterior à viagem para Niterói. Aparentemente, utilizaram um cano de chumbo como matéria-prima para as máscaras. Em um balde na casa de Manuel, a polícia encontrou pedaços de chumbo que correspondiam aos recortes das máscaras sobre o nariz. Na ocasião, Manuel explicou a Neli que precisavam das máscaras para “trabalho”. Na oficina, a polícia também encontrou outras máscaras de chumbo.

A polícia apurou que, na sexta-feira, 12 de Agosto, Fernando José, vizinho e amigo de Miguel e Manuel, presenciou um episódio semelhante. Fernando surpreendeu os amigos na oficina improvisada na casa de Manuel, martelando um cano de chumbo. Curioso, perguntou o que era eles estavam fazendo. A princípio, os dois técnicos permaneceram em silêncio. Mas, quando o vizinho insistiu, deram-lhe uma resposta intrigante [MM1]:
Estamos criando qualquer coisa que evitará o fim do mundo, em 1968, quando do grande ciclone que arrasará grande parte do nosso planêta.
E não disseram mais nada.
A nota com as instruções foi identificada como sendo de caligrafia de Miguel, mas acredita-se que os termos (como “ingerir cápsulas”) não façam parte de seu vocabulário cotidiano. Presume-se que alguém, como um médico, tenha ditado a nota para ele.
O Instituto de Engenharia do Exército afirma que as máscaras não continham nenhum material radioativo. A análise foi solicitada pela polícia devido à natureza desconhecida do experimento realizado por Miguel e Manuel.
A hipótese do pacto suicida é descartada logo de início, devido a vários fatores: ausência de motivo, desaparecimento de parte do dinheiro (teriam sido roubados?) e o vale da garrafa de água (por que pedir um vale se não pretendiam voltar para trocá-lo?).
Uma linha de investigação aponta para espionagem por meio de transmissões de rádio: eles eram técnicos em eletrônica com o conhecimento necessário pra tal, códigos foram encontrados com eles e o topo da colina era remoto e isolado, um local propício para transmissões de rádio.
Outra linha de investigação foca em contrabando. O jornal de 17 de Agosto encontrado no local trazia uma reportagem sobre um grupo de contrabandistas que fora parcialmente desmantelado. Cinco contrabandistas foram identificados, mas outros dois ainda estavam foragidos, segundo o jornal.
Em outra linha de investigação, Miguel e Manuel foram vítimas de uma armadilha elaborada. Eles foram a Niterói para visitar um centro espírita e alguém lá, ao descobrir que portavam uma grande quantia em dinheiro, armou uma cilada. Segundo essa teoria, eles foram enviados ao topo do Morro do Vintém em uma missão inventada, onde foram roubados e assassinados. Mas, como a polícia só chegou ao morro quatro dias após as mortes, é possível que alguém tenha encontrado os corpos antes e levado parte do dinheiro. Afinal, pelo menos dois jovens sabiam da existência dos corpos antes de 21 de Agosto.
Outra possibilidade é a de um experimento científico e/ou espiritual que deu errado.
A polícia estima o tempo de deslocamento da rodoviária até a Fluscop, de ônibus, de carro e a pé, e compara com os tempos que Miguel e Manuel supostamente levaram. Em qualquer cenário, há uma lacuna de cerca de 21 minutos que não pode ser explicada. A hipótese é que, antes de irem para a Fluscop, eles pararam em um local desconhecido para se encontrar com alguém. Um investigador notou a existência de um famoso centro espírita ao longo do caminho (identificado como SEPE no mapa acima) e especulou que eles teriam parado lá para receber as instruções finais para o experimento, mas nada foi comprovado conclusivamente.
A polícia ouviu o relato de uma mulher que, por volta das 17h do dia 17 de Agosto, viu um jipe com cinco homens se aproximando da Rua Andrade Pinto [JB3]. Os homens estacionaram o carro e começaram a subir a ladeira. Esse relato foi feito à polícia por um homem chamado Raulino de Matos, que acrescentou que a mulher achou o fato um pouco estranho, pois já estava começando a escurecer. A polícia está procurando a mulher para colher seu depoimento oficial.
Segundo a investigação, um dos bilhetes contendo códigos secretos é, na verdade, algo mais prosaico: os números e letras são códigos para identificar válvulas usadas em televisores analógicos e outros aparelhos eletrônicos. De acordo com Élcio, foi ele quem pediu que trouxessem as válvulas e lhes passou os códigos. De fato, os três códigos mostrados na imagem do bilhete são códigos para válvulas eletrônicas: EY88 (produzida pela primeira vez em 1959), ECL82 (1956) e 12AU7 (1951).

Em 1966, a revista “Eletrônica Popular” era bastante conhecida entre os entusiastas de eletrônica no Brasil. Seus artigos apresentavam a teoria, projetos práticos e circuitos eletrônicos com esquemas. A imagem abaixo mostra duas edições de 1966, incluindo um projeto que utiliza a válvula identificada como 12AU7.

Ambas as famílias negam que o lenço encontrado na clareira pertença a Miguel ou Manuel. Na época, a polícia não conseguiu identificar nenhum conhecido, amigo ou da família, com as iniciais A.M.S.
Há uma contradição em relação ao relógio encontrado junto aos corpos. A família de Miguel afirma que o relógio dele ficou em sua casa, em Campos, mas a polícia diz ter encontrado um relógio dentro das roupas de Miguel. Além disso, a atendente do bar onde compraram água mineral disse que Miguel olhava constantemente para o relógio, parecendo estar com pressa.

Isabel, uma das irmãs de Miguel, tem o seguinte a dizer sobre o caso:
Eu sei, eu sei o que aconteceu. Muitas vêzes Miguel me falou a respeito de uma experiência muito importante que iria fazer. Nos últimos dias, como êle se mostrasse calado, a fisionomia preocupada, compreendi logo que chegara o momento. Depois, foi aquela viagem súbita, na companhia de Manuel? Porque? Não sei ainda bem o que aconteceu, mas sei que tudo está ligado às coisas aparentemente sem sentido de que êle costumava me falar.
O Sr. Amaro, pai de Miguel e também um praticante devoto do Espiritismo, lembra-se de uma conversa com o filho, na qual Miguel disse [MM1]:
Estou certo de que a Terra não é o único planêta habitado. Muitos outros planêtas também o são. Atualmente venho fazendo estudos a respeito e estou cada vez mais convicto de que as possibilidades de o homem chegar a um outro mundo habitado são muito maiores e mais fáceis do que se imagina.
Durante a investigação, um tal de José de Souza Arêas contou à polícia uma história curiosa: em 1962, um homem chamado Hermes Luiz Feitosa, também técnico de televisão, foi encontrado morto no topo do Morro do Cruzeiro, também em Niterói. O detalhe curioso: havia uma máscara de chumbo ao lado do corpo. Não há registros de que a polícia tenha conseguido obter informações concretas sobre essa pessoa. Não encontrei nenhuma notícia que documentasse essa história na época dos fatos, ou seja, em 1962.
Aparentemente, a história só veio à tona como um relato indireto em 1966, depois que o caso das máscaras de chumbo ganhou destaque na mídia. Provavelmente, a história começou a se espalhar após um artigo publicado na revista Manchete, em setembro de 1966, que citava esta declaração de José de Souza:
Em 1962, aqui mesmo em Niterói, aconteceu coisa parecida com a morte dos dois homens de Campos. Um técnico de televisão, um francês, apareceu morto no alto do Morro do Cruzeiro. E o senhor sabe o que foi que encontraram ao lado do seu corpo? Uma máscara de chumbo.
Na oficina de Miguel e Manuel, a polícia encontra um livro chamado “A Vida no Planeta Marte” repleto de anotações. No prefácio, Hercílio Maes, o autor do livro, afirma que o texto lhe foi ditado por uma entidade espiritual chamada “Ramatís”. Este livro explica que Marte é um planeta habitado e descreve em detalhes os vários aspectos da civilização marciana: família, educação, cultura, religião, entretenimento, tecnologia, indústria, transporte, governo, entre outros. Há um capítulo “Aeronaves, naves espaciais, discos voadores” que fala sobre a tecnologia das naves espaciais marcianas, e outro intitulado “Viagens interplanetárias”. O capítulo “Reencarnação e desencarnação” explica que o espírito de um ser humano que morre na Terra pode reencarnar como um marciano, mas os marcianos nativos conseguem distinguir se um indivíduo é “nativo” ou “estrangeiro”.

Eis o que o livro nos diz sobre os discos voadores marcianos:
PERGUNTA: Qual seria o aspecto exato que nós veríamos deparando com um desses
aparelhos a pouca distância?
RAMATIS: Dependeria, naturalmente, de qual planeta a que o aparelho pertencesse, pois já vos dissemos que existem grandes diferenças entre os mesmos, inclusive quanto ao sistema, embora todos eles só possam atingir o vosso mundo ou além, aproveitando a energia da lei de gravidade. O aparelho marciano, tipo comum, vos daria idéia de uma enorme calota, de relevos salientes no terço superior, circulada de escotilhas de vidro azulado, transparente. A sua cor usual é entre o laranja-rosa até o salmão e, às vezes, o puro turquesa. A sua aparência, quanto ao material, dar-vos-ia idéia de alumínio ou aço polido, pois a superfície é absolutamente lisa e macia, dando impressão de estar maravilhosamente encerada. Todo o aparelho é construído com a substância vítrea a que já nos referimos, resistente a mais de 6.000 graus de calor; e as vossas metralhadoras, por mais possantes, não produziriam quaisquer arranhões na sua couraça. Tais aparelhos, embora atinjam até 30 metros de altura por 60 metros de diâmetro, poderíeis movê-los de lado, até certa altura, pois não pousam definitivamente; eles flutuam a um ou dois metros, em perfeito equilíbrio no seu campo estático de gravidade, conforme faz o vosso beija-flor, essa jóia alada que, para sugar o néctar das flores, se mantém em vôo estático. O que mais destaca os “discos” são as auras de luz polarizada que vibram em torno. A sua poderosa superfície radioativa é capaz de desintegrar qualquer veículo ou aeronave terráquea; pois, desde que os acumuladores diferenciais sejam elevados à sua potencialidade máxima de irradiação magnética, todo e qualquer elemento do vosso mundo, que permanecesse a distância igual a três vezes o tamanho do aparelho, seria desintegrada instantaneamente.
A polícia descobriu que, em 15 de Agosto, dois dias antes das mortes, Miguel e Manuel viajaram na mesma linha de ônibus para Niterói [JB12]. Mas, durante uma parada em Macaé, Manuel passou mal e eles tiveram que retornar para Campos. Em 17 de Agosto, na mesma parada, Manuel voltou a se sentir mal, mas desta vez eles conseguiram embarcar e continuaram a viagem para Niterói.
Um laudo toxicológico dos corpos foi eventualmente liberado, mas é quase certo que foi forjado: os órgãos internos foram descartados antes que qualquer análise pudesse ser feita, como descobriu um repórter na época. Ao ser questionado por uma entrevistadora a respeito da veracidade do laudo, Idovam Ferreira afirmou que estava sob pressão para solucionar o caso [YT2]:
… é muito boa a pergunta, mas existe uma coisa chamada administração. Eu não tinha condições de lutar contra a administração. Mesmo porque eu não tinha como provar, em absoluto, isso.
Em seu relatório, Idovam afirma, nesta longa sentença, que [OF7]:
Tendo em vista as diligências efetuadas, em tôrno do caso, chegamos à conclusão de que a morte de ambos foi ocasionada quando em busca de experimentação para a comprovação da alma, ou em experiência de comunicações telepáticas, ou qualquer outra, dentre as inúmeras abrangidas pela Parapsicologia, através da busca de um estado de semi, ou de inconsciência total, ocasionada por envenenamento de substâncias (cápsulas), de composição química não identificada no exame, e cujo veículo para ingestão foi a água mineral adquirida momentos antes, num bar das proximidades.

Durante a investigação, Idovam solicitou a ajuda de um renomado médico carioca, o Professor Sílvio Lago. Em resposta, o Dr. Lago preparou um relatório de dez páginas explicando detalhadamente a ciência da parapsicologia e sua doutrina [OF3], afirmando que:
… minha hipótese, Sr. Delegado, não dista muito da que emitiu V. Sa., pois tenho para mim que, de um modo ou de outro, Miguel e Manuel pagaram com a vida a sua inclinação para o sobrenatural e o maravilhoso, lado constitutivo e marcante na humanidade como no interior de todos nós. Resta saber se êles assumirão diante do Criador, sozinhos, a responsabilidade pela ocorrência, ou se a justiça terrena terá meios de castigar culpados, se existem …

A Justiça, no entanto, não concordou com o resultado da investigação. Edmo Lutterbach, o promotor responsável pelo caso, não ficou satisfeito com as explicações sobrenaturais do relatório. Em março de 1967, ele devolve o caso à polícia, e uma nova investigação é iniciada, desta vez sob o comando do detetive de homicídios Saulo Soares de Souza. A primeira decisão foi solicitar a exumação dos corpos de Miguel e Manuel.
Em 25 de Agosto de 1967, a exumação é realizada. Sebastião Faillace (cujo nome fora apagado do primeiro relatório) é designado para a tarefa. Ele constata que os corpos haviam recebido um excesso de formol, o que impossibilita a realização de uma análise toxicológica adequada. A causa da morte permanece desconhecida.

Em Setembro de 1967, a Secretaria de Segurança do Estado do Rio de Janeiro solicita auxílio do exterior para a resolução do caso. Espera-se que um programa do Departamento de Estado dos EUA, denominado Ponto IV, contribua para as investigações [JB14]. O Ponto IV foi um programa de assistência técnica para países em desenvolvimento anunciado pelos EUA em 1949.
No início de 1968, ossos e tecidos coletados durante a exumação foram enviados ao Instituto de Energia Atômica de São Paulo, como última tentativa de identificar a causa da morte. O resultado da análise aparentemente foi extraviado, o que atrasou a investigação por algumas semanas. Quando o pacote finalmente chegou a Niterói, a Polícia Técnica ficou perplexa, pois não conseguia entender os resultados. Mais tarde, com a ajuda de técnicos do Instituto de Energia Atômica, foi possível determinar que todos os níveis dos elementos medidos (arsênio, mercúrio, bário e tálio) estavam normais.
Em Setembro de 1968, um fotógrafo chamado Ari Pereira capturou a imagem de um objeto voador não identificado sobre o Morro do Vintém [DN1]. O objeto permaneceu imóvel por alguns minutos e depois desapareceu em alta velocidade. Ari explicou que o objeto emitia uma luz prateada tão intensa que ele precisou usar um filtro amarelo em sua câmera [FS5]. Muitas outras pessoas em Niterói também afirmaram ter visto o mesmo objeto.

Em Janeiro de 1969, uma mulher contou à polícia que sabia quem era o responsável pelas mortes de Miguel e Manuel [OJ1]. Ela foi mantida sob custódia enquanto a polícia procurava o suspeito. A história provavelmente foi inventada e a investigação não levou a lugar nenhum.
Em Fevereiro de 1969, um homem chamado Hamilton Dezani (criminoso confesso condenado a 50 anos por outros crimes) admitiu a um juiz que sabia o que havia acontecido com Miguel e Manuel. Hamilton afirma que, em agosto de 1966, foi convidado por três bandidos para participar de um “trabalho”. Todos se encontraram em um centro espírita em Niterói, onde Miguel e Manuel, as vítimas, já os aguardavam. Hamilton levou os três homens e as duas vítimas para dar uma volta de carro pela cidade até que um dos homens pediu que ele parasse. Hamilton esperou no carro e, alguns minutos depois, os três homens retornaram sem Miguel e Manuel. Eles disseram a Hamilton que haviam forçado as vítimas a ingerir veneno e que haviam ficado com o dinheiro delas. Hamilton foi levado a Niterói para interrogatório, mas, devido ao número de contradições em seu relato, a polícia rapidamente concluiu que ele estava mentindo. A verdadeira intenção de Hamilton era deixar a prisão de São Paulo e tentar fugir enquanto estivesse em Niterói. Ele foi enviado de volta a São Paulo e processado por falso testemunho.

Em Maio de 1969, o promotor Edmo Lutterbach foi transferido para uma nova jurisdição. O novo promotor pede o arquivamento do caso, embora a investigação policial ainda esteja em andamento, o que é bastante incomum.
Em Junho de 1969, a polícia revela uma pista que havia passado despercebida desde o início do caso: um pequeno bilhete de papel encontrado ao lado dos corpos com apenas uma palavra escrita: banzai [JB8]. Essa palavra é uma forma de saudação em japonês e, segundo a polícia, havia um culto de origem japonesa localizado em Niterói que era conhecido por usar essa palavra frequentemente em suas reuniões. Jornais da época noticiaram que alguns membros desse culto foram interrogados pela polícia, mas, como era de se esperar, essa pista se mostrou um beco sem saída. Ao investigar o passado de Miguel, os detetives fizeram uma descoberta curiosa. Em uma escola primária que Miguel frequentou em Campos, encontraram um desenho [OF5] feito por ele contendo duas suásticas nazistas, um emblema da foice e do martelo comunista e uma espiral adornada com símbolos cabalísticos sobre a qual estava escrita a palavra “banzai”. Aparentemente, os detetives não relacionaram este desenho com o bilhete encontrado na clareira.
Em Julho de 1969, Valdir Soares, um criminoso notório preso no Rio, disse aos detetives que conhecia os assassinos de Miguel e Manuel [OF1]. Valdir afirmou que dois presos em São Paulo, um homem conhecido como Espanhol e outro apelidado de Homem-Aranha, eram os autores do crime. Devido ao recente fiasco envolvendo Hamilton Dezani, ocorrido poucos meses antes, a polícia manteve-se discreta o e não divulgou muitas informações ao público. Mas, mais uma vez, a investigação não revelou nada.

Em Outubro de 1969, Alexandre Monteiro Selva Netto, um fugitivo conhecido como “Professor Ramayana” ou “Conde Ramayana”, vira notícia: ele agora é suspeito no caso das Máscaras de Chumbo [OF2] (ele já era procurado por muitos outros crimes na época, tendo sido preso e fugido da prisão pelo menos duas vezes). Ramayana já morou perto do Morro do Vintém e costumava receber convidados que participavam de diversos experimentos de parapsicologia no local. As iniciais no lenço encontrado com os corpos são A.M.S., o que corresponde ao seu nome. A polícia localizou Ramayana em Recife. Lá, ele fingia ser professor de parapsicologia, tendo inclusive recebido convites para dar palestras em uma universidade local. A história diz que Ramayana escapou do cerco policial escondendo-se dentro de uma geladeira e, em seguida, fugiu para outro estado. Devido a esse novo fato, a polícia estava considerando reabrir o caso das Máscaras de Chumbo, mas somente após (e se) Ramayana fosse preso. A história se torna confusa a partir deste ponto, pois há relatos de que Ramayana foi preso em 1971 no Rio de Janeiro, mas também em Fortaleza em abril do mesmo ano. Depois, há relatos de que a polícia organizou sua transferência de Fortaleza para Niterói. Ele teria dito que qualquer tentativa de prendê-lo seria inútil, pois usaria seus poderes “mágicos” para hipnotizar os agentes para que o deixassem escapar. E, de fato, em 1972, ele conseguiu escapar da prisão antes da transferência. Mas, no ano seguinte, seus poderes mágicos aparentemente falharam, já que ele foi capturado em abril de 1973 e, desta vez, levado para Niterói. Infelizmente, seis anos após as mortes de Miguel e Manuel, não há menção de que a polícia tenha cumprido a promessa de reabrir o caso das Máscaras de Chumbo após sua prisão.
Em Abril de 1980, Jacques Vallée, um pesquisador que trabalhou para a NASA e um dos maiores especialistas no fenômeno OVNI, veio ao Brasil para investigar o caso. Ele subiu o Morro do Vintém e conversou com policiais e repórteres que cobriram o caso em 1966. Ele observou que na clareira onde os corpos foram encontrados a grama não havia crescido desde então. Os resultados de suas investigações se tornaram o prólogo de seu livro “Confrontos: A Busca de um Cientista por Contato Alienígena“.

Vallée mencionaria brevemente o caso novamente em seu livro “Ciência Proibida – Diários 1957-1969”, de cerca de 1992, onde relata a história de como o caso chegou ao seu conhecimento. Uma anotação de 28 de Setembro de 1966 dizia:
Um jornal francês que alguém havia deixado no avião que nos trouxe para casa continha uma reportagem muito curiosa: dois jovens técnicos em eletrônica morreram no alto de uma colina perto do Rio de Janeiro enquanto esperavam por um disco voador que alegavam ter contatado. O caso está ficando conhecido como “O Mistério da Máscara de Chumbo” porque os cadáveres tinham máscaras rudimentares sobre os olhos. O inspetor José Venâncio Bittencourt, um detetive veterano da polícia do Rio, foi citado dizendo que este é o mistério mais estranho de sua carreira.
Outra anotação de 30 de Outubro de 1966 dizia:
Também compilei um resumo do caso brasileiro da Máscara de Chumbo em Niterói, perto do Rio, onde dois homens que se sabia estarem envolvidos em uma tentativa de contatar discos voadores foram encontrados mortos em uma encosta sem nenhum sinal aparente de violência. Várias testemunhas relataram um estranho disco luminoso sobre o local na mesma noite em que eles morreram. Isso revela um enigma muito maior do que eu suspeitava quando li pela primeira vez uma notícia sobre o assunto em um jornal francês; A abordagem vai além de tudo o que o Projeto Livro Azul e a Comissão Condon estão investigando.
É evidente que sua abordagem do caso, desde o início, se concentra no fenômeno dos discos voadores, embora isso seja apenas um aspecto da história.

Em 1992, Mário Dias, um dos primeiros repórteres a chegar à clareira no topo do Morro do Vintém em 21 de Agosto de 1966, dedicou um capítulo de seu livro “Malditos Repórteres de Polícia” ao caso das Máscaras de Chumbo. Nesse capítulo, ele menciona brevemente sua crença de que Miguel e Manuel foram envenenados com cicuta, uma planta altamente venenosa.


A seguir deixo algumas reflexões sobre aspectos diversos deste caso.
“Eu quero acreditar”É evidente que Miguel e Manuel estavam envolvidos com as práticas do Espiritismo. Também é evidente que pensavam que iriam participar de algum experimento incomum em Niterói, tendo recebido instruções de terceiros e se preparado com antecedência. Se eles acreditavam naquela história fantástica do livro de “Ramatís”, é possível que eles realmente achassem que iriam se comunicar com ou até mesmo contatar seres de outros planetas. No fim, essa ingenuidade foi o que os matou. Miguel e Manuel esperavam voltar para Campos após a experiência, mas algo não saiu como planejado.
Horário marcadoSe Miguel e Manuel planejavam usar a mesma Viação Santo Antônio para a viagem de volta, os horários de Niterói para Campos são 18h, 22h e 24h, como podemos ver na tabela de horários mostrada anteriormente. Sabemos que o horário das 18h está fora de questão, porque eles deveriam estar no topo do morro às 18:30h. O próximo horário disponível é 22h, o que significa que eles teriam que ficar em Niterói por várias horas após o “compromisso” no Morro do Vintém. Isso indica que eles esperavam apoio de alguém na cidade, pelo menos para providenciar um lugar para ficarem por algumas horas, afinal, eles não trouxeram bagagem para pernoitar. Também é interessante notar que o pôr do sol em 17 de Agosto em Niterói ocorreu às 17:35h. No horário marcado, às 18:30h, já estaria escuro no Morro do Vintém, aquela era uma noite sem lua e Miguel e Manuel não tinham uma lanterna. Após o término do experimento, supondo que tivessem sobrevivido, ambos teriam que descer um morro lamacento na escuridão total.
Um espaço vazioSe assumirmos que os dois chegaram à Niterói por volta de 14:00h e que atingiram a clareira às 16:30h, e usando os tempos estimados de caminhada apresentados acima, podemos fazer alguns cálculos. O roteiro Rodoviária — Fluscop — Casa Brasília — Bar São Jorge — Base do morro seria percorrido em aproximadamente 48 minutos. Como estavam com pressa, vamos supor que permaneceram no máximo 4 minutos em cada um dos três estabelecimentos comerciais, tempo mais do que o suficiente para bater um papo com Hernani, comprar as capas de chuva e pedir a água mineral. O tempo gasto no centro da cidade antes de iniciar a subida seria então de 60 minutos. É mais difícil saber o tempo que levaram para chegar à clareira, mas um jornal da época [JB2] estima 70 minutos para a empreitada. Tempo total: 130 minutos, ou 2:10h. Ainda sobram cerca de 20 minutos, tempo esse que poderia ou não ser usado para visitar algum outro ponto no trajeto. Caso tenham chegado atrasados ao compromisso no alto do morro, teriam tido ainda mais tempo para esta visita extra. Alguns relatos não confirmados sugerem que Miguel e Manuel fizeram o último trecho de carona em um jipe. Se isso for verdade, o tempo extra para tal visita seria ainda maior.
Sucesso?Há quem diga que Miguel e Manuel conseguiram fazer exatamente o que queriam: seus espíritos se libertaram de seus corpos e alcançaram o outro mundo, ou outra dimensão. Mas enquanto estavam lá, algo deu errado aqui na Terra. Alguém chegou à clareira e, sem saber o que estava acontecendo, moveu seus corpos, perturbando a cena e interrompendo o ritual. Por esse motivo, Miguel e Manuel não puderam retornar e permaneceram presos naquela dimensão. Seus corpos não duraram muito tempo sem suas almas e acabaram perecendo. É uma explicação incrível que, obviamente, é impossível de provar.
VilãoToda história policial tem um vilão e, neste caso, o papel pertence a Élcio, o amigo espírita. Acredito que ele sabia exatamente o que estava acontecendo. Ele pode não ter envolvimento direto nas mortes, mas foi sua influência sobre Miguel e Manuel que os levou ao experimento no alto daquele morro. Não acho que Élcio pensasse que eles morreriam, mas como foi o que aconteceu, ele optou por ser discreto e esconder informações da polícia.
Sem exameO principal problema para os investigadores foi, sem dúvida, a falta de um exame toxicológico. Por causa disso, a causa da morte não pôde ser determinada e toda a investigação foi severamente prejudicada. Foi envenenamento? Em caso afirmativo, quanto tempo o veneno levou para agir? Ou teria sido uma combinação fatal de medicamentos? Uma dose excessiva talvez? Por um bom tempo, as pessoas acreditaram que um exame toxicológico havia sido realizado e os resultados foram todos negativos. Foi isso que levou as pessoas a acreditarem que, seja lá o que os tenha matado, não era deste mundo.
De outro mundoE quanto ao OVNI ? O único problema é: Gracinda e o marido só relataram o avistamento do OVNI acima do Morro do Vintém depois que a história das mortes, com todos os seus detalhes, havia sido amplamente noticiada. Se fosse o contrário, ou seja, se primeiro Gracinda tivesse relatado o avistamento e no dia seguinte alguém encontrasse os corpos exatamente abaixo do ponto onde o OVNI estava pairando, seria muito mais fácil de acreditar na história. É assim que as pessoas funcionam. Nossas mentes tentam relacionar experiências passadas com eventos atuais. Talvez a luz no céu não estivesse exatamente acima do morro, talvez não parecesse um OVNI, talvez nem fosse a hora ou a data certas. Mas agora que notícias das mortes misteriosas estão em todos os meios de comunicação, é possível que as pessoas adaptem suas histórias para se encaixarem aos eventos.
Quanto vale Cr$ 2.300.000 afinal?A moeda brasileira sofreu grandes alterações desde 1966. Para comparação, segue um recorte de jornal com as taxas de câmbio de algumas moedas estrangeiras em 17 de Agosto de 1966:

Um dólar americano equivalia a 2.200 cruzeiros na época dos fatos. A quantia que eles carregavam, portanto, era equivalente a US$ 1.045 em 1966. O vale da garrafa de água seria de US$ 0,09 e as capas de chuva custariam US$ 4,27 cada. A quantia encontrada junto aos corpos equivalia a apenas US$ 73. Miguel e Manuel disseram a amigos e parentes que usariam o dinheiro para comprar um carro usado, possivelmente um Fusca. Analisando jornais de 1966, encontramos dois anúncios desse tipo de carro:

O valor de entrada para um modelo de 1961 era de Cr$ 1.700.000, e para um modelo de 1964, de Cr$ 2.500.000. Portanto, a importância que carregavam era compatível com esses valores. Sem saber quanto Miguel e Manuel ganhavam na oficina, é difícil avaliar o esforço necessário para juntar essa quantia. Utilizando duas calculadoras online diferentes, uma do Departamento de Estatísticas do Trabalho dos EUA e outra da Calculadora de Inflação dos EUA, US$ 1.045 em agosto de 1966 equivalem a aproximadamente US$ 10.200 em moeda atual (Fevereiro de 2025). Podemos também ajustar a moeda brasileira pela inflação de 1966 até os dias de hoje e, em seguida, convertê-la para dólares. Pelos motivos já mencionados, esse processo é mais complexo, mas ainda possível. O Banco Central do Brasil disponibiliza uma calculadora online para este fim, embora o processo não seja simples. Utilizando uma conversão em múltiplas etapas, primeiro convertemos Cr$ 2.300.000 em Agosto de 1966 para NCz$ 5.032 em Junho de 1989, depois para R$ 62.012 em Fevereiro de 2025 e, finalmente, para US$ 10.825, o que resulta em um valor quase idêntico. De qualquer forma, estimar o valor relativo de diferentes moedas ao longo de várias décadas é sempre problemático, portanto, esses valores devem ser considerados estimativas aproximadas. É fato também que a inflação impacta diferentes tipos de bens de maneiras distintas: o valor necessário para comprar um carro usado em 1966 não é necessariamente equivalente ao valor necessário para comprar um modelo semelhante de carro hoje.

Em um artigo do jornal O Fluminense, há uma fotografia (de péssima qualidade) mostrando alguns dos itens recolhidos no local, entre eles uma nota de Cr$ 5.000, provavelmente recuperada de um dos corpos. Se o montante original de Cr$ 2.300.000 fosse dividido em notas de 5.000, eles estariam carregando 460 notas. Como havia outros valores de notas de Cruzeiro, é claro que a quantidade exata não pode ser determinada, mas isso nos dá uma estimativa de quantas notas eles teriam levado consigo para Niterói.
Brinquedos eletrônicosO gerador de frequências que Manuel mostrou a Hernani, o dono da Fluscop, era provavelmente semelhante à configuração mostrada na imagem abaixo: um gerador de sinais FM-TV Simpson modelo 479 acoplado a um osciloscópio Simpson modelo 476. Este encontro entre Manuel e Hernani é descrito em um artigo de jornal [OF6]: “… ocasião em que o técnico lhe fez entrega de um recorte de revista onde aparecia o anúncio da Mesbla, sobre o aparelho gerador de sinais AM e FM com osciloscópio Simpson, e que tal aparelho estava orçado em mais de 1 milhão de Cruzeiros“.

No manual do osciloscópio modelo 476, a válvula 12AU7 aparece na lista de componentes, como mostra a figura abaixo. Talvez Miguel e Manuel estivessem tentando construir um osciloscópio caseiro com características semelhantes a este modelo.

Há alguns anos, enviei um pedido de acesso à informação à Marinha do Brasil, perguntando sobre a investigação do incidente na praia de Atafona em 1966. Algumas semanas depois, recebi a resposta: “Participo que não consta no Arquivo da Marinha nenhum documento sobre investigação da explosão na praia de Atafona em 1966”, o que não surpreende, já que manter registros de mais de 50 anos não é uma tarefa fácil.

Algo que me intriga é a cena encontrada no topo do morro. Os corpos estavam deitados de costas, sobre um tapete de folhas de palmeira cortadas especificamente para esse fim. Provavelmente, eles se deitaram ali por conta própria e seguiram as instruções, ingerindo as cápsulas e colocando as máscaras. Teriam sido as mortes tão repentinas que eles não conseguiram se mover? Se fosse mesmo veneno, não teriam tentado se mexer ou se levantar nos seus últimos momentos? As cápsulas afetaram os dois homens exatamente ao mesmo tempo, de modo que um não pôde ajudar o outro? Se isso fazia parte de um plano elaborado para roubá-los e simular um experimento paranormal que deu errado, os criminosos não pensaram que um exame toxicológico revelaria o veneno? Como poderiam saber de antemão que o exame não seria realizado?

O detetive Saulo Soares de Souza desenvolveu a teoria de que as cápsulas continham curare, uma poderosa toxina que, em contato direto com a corrente sanguínea (por meio de um ferimento, por exemplo), causa paralisia muscular e, acima de certos níveis, morte por asfixia. Essa teoria, porém, nunca foi comprovada. Além disso, é sabido que o curare é inofensivo quando ingerido por via oral. O repórter Mário Dias entrevistou Saulo, então com 75 anos, em 2007. Nessa entrevista, Saulo afirmou que, apesar de aposentado, ainda se interessava pelo caso e que havia encontrado uma pista importante que poderia comprovar sua teoria de homicídio por envenenamento. Essa teoria seria detalhada em outro livro que Mário Dias estava escrevendo, desta vez dedicado exclusivamente ao caso das Máscaras de Chumbo, com a colaboração de Saulo. Saulo faleceu em 2018. Mário Dias faleceu em 2021, sem publicar seu novo livro.
O fimÉ fato que, com o passar dos anos, a polícia perdeu o rumo das investigações. As pistas se esgotaram, muitos suspeitos foram apresentados, apenas para serem descartados rapidamente, e o caso mudou de mãos diversas vezes, até esfriar. Segundo o documentário Linha Direta, de 2004, um pedido para reabrir o caso não era mais possível, pois os arquivos não foram localizados no Judiciário. O material foi quase certamente destruído, como era comum em casos arquivados após um período de inatividade, geralmente de dez anos, o que é lamentável: havia cerca de 4000 páginas de relatórios policiais, depoimentos, resultados de diversos testes, fotografias, croquis, os bilhetes encontrados com Miguel e Manuel e, claro, as Máscaras de Chumbo.

Estes são os recortes de jornal que utilizei como fontes.
- Correio da Manhã
- Diário de Notícias
- Luta Democrática
- Folha de São Paulo
- Jornal do Brasil
- Diário da Noite
- O Fluminense
- O Globo
- O Jornal
- Cidade de Santos
Além de jornais, utilizei também artigos das revistas:

Da esquerda para a direita:
- O Cruzeiro, 12 de Setembro de 1966: O Mistério dos Mortos Mascarados
- O Cruzeiro, 4 de Maio de 1968: O Mistério das Máscaras de Chumbo
- Manchete, 10 de Setembro de 1966, edição 751: O Enigma das Máscaras de Chumbo
- Manchete, 17 de Setembro de 1966, edição 752: Os 10 Mistérios do Morro do Vintém
- ufo, Maio de 2003: O Caso das Máscaras de Chumbo Revisado
Por último, também me baseei nestes documentários de TV:

- Linha Direta, março de 1990, da Globo (canto superior esquerdo). O primeiro episódio do programa abordou o caso das Máscaras de Chumbo.
- Linha Direta – Justiça, junho de 2004, da Globo (canto inferior esquerdo). Um episódio da segunda versão do Linha Direta, também abordando o caso das Máscaras de Chumbo.
- Inexplicável América Latina, 2023, do History Channel (canto superior direito), “O caso brasileiro mais misterioso das últimas 5 décadas”.
- Programa Casa da Gente, 2007 (partes um, dois e três), programa de TV local de Niterói apresentado por Mário Dias (canto inferior direito). Mário apresenta o caso, mostrando material de sua coleção pessoal e também entrevista o detetive Saulo.

























































